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Meu Velho

Escrevi um texto em homenagem aos quatro anos de saudades de meu pai, e de fato fiquei com vontade de falar mais do meu velho amigo. E aí o South me instigou... então, vou guardar um pouquinho meu egoísmo e meu ciúme, e expor aqui essa figura fantástica.

 

Meu pai faleceu aos 55 anos, muito novo, mas costumo dizer que foi no dia certo, porque foi do jeito que ele pediu. Um infarto fulminante, na frente de um cardiologista que, atônito, não conseguiu salvar sua vida. Sem dor, como meu pai sempre sonhou morrer. Rápido. Ele desejou que fosse assim, e assim foi feito. Morreu como viveu: do jeito que queria.

 

Nasceu numa fazenda, no sertão pernambucano. Filho de família pobre para os nossos padrões urbanos, e rica para os padrões sertanejos. Estudou até a quarta série apenas, mas era metido a entender de tudo. Palpitava sempre sobre qualquer assunto que estivesse em discussão. Uma vez chegou a discutir mais de hora com um juiz, sobre um erro (quer dizer, ele achava que era erro) numa decisão judicial. Hilária a discussão.

 

Trabalhou em tudo o que se possa imaginar. Passou fome, dormiu na rua, etc etc etc. Isso quando resolveu vir para Recife. Foi nomeado policial civil, na ditadura, e o colocaram no Dops. Pediu demissão quando o delegado mandou que torturasse um preso. Achou que era covardia, não fez, e foi preso por isso.

 

Era um bruto para muitos, um doce para a maioria. Sincero sempre, mesmo que fosse preciso magoar alguém. Odiava mentiras. Bebia muito, mas não se encaixava no padrão do alcoólatra. Adorava ter amantes, e teve muitas. Sabia ser amigo como ninguém, ao ponto de prejudicar-se para ajudar a quem gostava. Muitos exploraram isso, é claro.

 

Até os 35 anos trabalhou de terno e gravata, e sapato social. Demitido (por sua língua ferinamente sincera), chegou em casa feliz como um menino que ganha um presente. Chegou e anunciou: fui demitido. Agora nunca mais uso terno, gravata, nem sapato. Tudo isso me fazia muito mal.

 

Não tinha medo algum do futuro, vivia sempre o presente, o agora. Dizia que tudo ia dar certo no fim. E dava, na maioria das vezes. Montou um escritório e desde então trabalhou de bermuda, camiseta e chinelo de couro. Nunca mais na vida usou um terno ou um sapato.

 

Não gostava de política, mas amava discutir política. Disse que não dependia do governo, por isso não prestava mais contas ao governo – leia-se: não respeitava nenhuma autoridade, não pagava impostos, não usava serviços públicos que precisassem de uma procura (por exemplo, não usava hospital público). O escritório ele montou numa área invadida. Quase foi preso diversas vezes, por diversos motivos  - todos honestos, mas desaforados. É o preço que se paga por querer viver de si próprio apenas.

 



Escrito por Adoradora às 21h04
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Meu Velho II

Me tratou como filha até eu sair de casa. Depois, viramos amigos. Dava sempre conselhos, passava a madrugada toda comigo em bares, íamos para festas, dançávamos, viajávamos. Meus irmãos não bebiam, eu era a sua companhia. Certamente, ninguém o compreendeu na vida, e desfrutou de sua companhia, melhor que eu. Era um moleque.

 

Uma vez ele chamou a mim e a minha irmã para uma conversa séria. Disse que a gente podia ser e fazer tudo na vida, menos usar drogas e ser freira. “E se eu quiser ser puta, pai?” perguntei, como uma afronta. E ele: “seja. É uma profissão digna como outra qualquer. E ainda vai lhe dar prazer”. “Mas porque não posso ser freira?”, indaguei. Resposta: “porque aquelas vagabundas não fazem nada da vida. E toda freira é infeliz, e não quero que filha minha seja infeliz”. Note: esse homem foi educado em padrões católicos rígidos.

 

Eu tinha muito ciúme dele, e vez por outra estava brigando por causa das amantes que ele tinha e me apresentava. Certa madrugada estávamos num bar (botecos sempre vagabundos, que ele adorava) e ele defendendo as prostitutas. Conversa vai, conversa vem, e ele me chama de preconceituosa. Tentei me defender, mas ele queria provar que eu estava errada. Perguntou se eu já tinha ido a algum puteiro na vida, eu disse que não (e não tinha ido mesmo). Então ele disse que era divertido, e me convidou a ir num, desses de zona portuária. Pensei que ele estivesse brincando, e topei. Não é que ele me levou mesmo? Passado o embaraço inicial, me diverti muito, rindo das performances profundamente trash de uma mulher obesa e velha, que fazia um strip no palco... Na saída, ele me indaga se eu tinha comprovado que as putas são mulheres como outras quaisquer. É, são mesmo. Deixei meu preconceito naquele puteiro.

 

Tive apenas um namorado que ele não gostou. Um dia meu pai aparece no meu apartamento dizendo que tinha uma surpresa pra mim. Fomos a um prédio, um apartamento vazio. “Gostou?” – sim, eu tinha gostado do ap. “É seu. Só tem uma condição: o fulano não põe os pés aqui”. Olhei pra ele e respondi que não aceitava nada sob qualquer condição, e só moraria num lugar onde pudesse entrar todos os que eu quisesse que entrasse. Diante do desaforo, ele solta uma gargalhada alta, me abraça e diz: “essa é minha cobrinha!” (ele me chamava de cobrinha porque sempre fui desaforada e tenho a língua afiada para dar respostas mal-criadas).

 

Meu pai era ainda um chorão, um emotivo. Se orgulhava dos filhos, da educação que havia conseguido dar aos filhos. Dizia “te amo” a toda hora. Abraçava, beijava em qualquer lugar que lhe desse vontade. Me ensinou tanto... a ser carinhosa, a respeitar os outros, a ser ética, a confiar em mim mesma, a ter amor-próprio... tantas coisas mais... me ensinou a amar a vida. Disse que a vida existe para nos dar alegrias, e que se pode obter ricas lições nos momentos ruins. Ensinou que a morte nada mais é que mais uma etapa natural da vida. Ensinou a dar valor ao que as pessoas são, e não ao que as pessoas têm. Ensinou a não ter preconceitos, a agir conforme a ética pessoal, a ser honesta. Ensinou que as regras da vida são muito mais importantes que as regras sociais. E que não importa o que as pessoas pensam de você: importa o que você pensa de você.

 

Meu velho... que figura!

 

  

 



Escrito por Adoradora às 21h04
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QUATRO ANOS

Cada vez mais raramente eu recordo meu pai, essa figura louca que tive o prazer de conviver por longos 30 anos. Um ícone atravessado, um exemplo a não ser seguido, que eu sigo. Meu melhor amigo. Se foi há quatro anos, num outro abril tão diferente deste que acaba de passar.

 

Tinha o desagradável hábito de me acordar com barulho, seja do telefone ou da campanhia estridente que eu tinha, às cinco e pouco da matina nos finais de semana. Odiava aquilo. Abria a porta, ou atendia ao telefone, puta da vida. Dava bronca, xingava. Um minuto só e eu já estava contente por ele manter aquele ritual, de me acordar com barulho mas com palavras tão carinhosas e amigas.

 

Ainda hoje quando faço alguma coisa da qual me arrependo, lembro do meu velho a dizer que eu podia fazer tudo na vida, menos alguma coisa que me envergonhasse ao ponto de não poder contar a ninguém. Foi ele quem me ensinou que a mentira é sempre a pior saída – lição que desaprendi há muitos anos, precisamente desde que me meti a trabalhar com política, e com políticos. Minto, mas lembro da repulsa que ele tinha de mentiras.

 

Sendo a filhinha queridinha, nunca levei um tapa, um puxão de orelha, um castigo. Mas um olhar de decepção que meu velho me lançou, quando eu tinha 16 anos, me marcou profundamente: eu tinha prometido a ele que deixaria de fumar (hábito que adquiri por brincadeira aos 15 anos). Tentei mesmo deixar, mas não consegui nem revelei meu fracasso. Um belo dia, voltando da praia, carteira de cigarro enrolada na canga, encontro meu pai. Ele, ingenuamente, puxa a minha canga para brincar comigo. E a carteira de cigarro cai, aos seus pés. Ai, aquele olhar doeu... não comentou nada, não brigou, não falou. Só me olhou nos olhos, longamente. Dói até hoje.

 

Anarquista praticante, o único que eu conheci. Uma figura. Ai... deu saudade...

 



Escrito por Adoradora às 23h33
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toc toc

Ele chegou, ele veio... e estou feliz pra caralho! Riam comigo, os meus... morram de inveja os outros. Eu sabia que ele viria. De mansinho, devagarinho, se apossando aos poucos, surpreendendo. Veio pra me tornar a mulher mais feliz desse mundo, neste momento. Como não anseio por eternidade, o momento me basta. E que se prolongue, tanto quanto seja possível se estender continuando a se maravilhoso como está sendo... Ele veio. É o que importa.

"Mudaram as estações / nada mudou / mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim, tão diferente..."



Escrito por Adoradora às 04h23
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